Não são muitos os artistas que podem se gabar de ter criado uma
linguagem musical. Robert Johnson, Frank Sinatra, Chuck Berry, Elvis, Hendrix,
Marvin Gaye, Miles Davis, os Beatles, Kraftwerk, Black Sabbath, Ramones, o
Faith No More - a lista não avança muito a partir daí. Nesse seleto grupo de
excepcionais, Celso Blues Boy arruma uma vaguinha por ter dado um sotaque
brasileiro ao blues, um gênero americano (ou africano, em suas raízes mais
profundas) por excelência, e com ele feito sucesso avassalador ao ponto de ser,
ao mesmo tempo, lenda, ídolo e referência, ainda mais quando o papo recai sobre
aquele instrumento de seis cordas chamado guitarra.
Exagero? Nada. Erro seria desprezar sua contribuição para a música
brasileira.
Os gringos o reconheceram: a revista Backstage colocou Celso entre os 20
maiores guitarristas da história; BB King, expressão máxima do blues, o
reverenciou ao dividir palcos e estúdio com ele e o convidar para fazer
carreira nos EUA; tocou no célebre Festival de Montreaux, na Suíça; The
Commitments, a banda do filme cult de Alan Parker, chamou Blues Boy para se
integrar a ela (e ele gentilmente recusou). Se Celso não foi alçado ao mesmo
patamar glorioso de Tom Jobim, João Gilberto, Caetano Veloso e outras sumidades
nacionais, não cabe aqui buscar explicações.
Fato é que Celso vem fazendo história desde a metade dos anos 70. Com
apenas 17 anos, por exemplo, integrou o grupo de Raul Seixas. Acompanhou uma
penca de veneráveis nomes da MPB (Renato e Seus Blue Caps, Sá & Guarabira,
Luiz Melodia...) e arregimentou fãs ao empunhar a guitarra nas bandas Legião
Estrangeira e Aero Blues, considerado o primeiro grupo de blues do Brasil e
dono de performances memoráveis na lendária casa de shows Apa Loosa, no Rio de
Janeiro.
Esses mesmos fãs viram Celso galgar os degraus da fama nos anos 80. Sua
estréia solo, em 1984, com "Som na Guitarra", é um clássico absoluto,
não só pelos hits que contém ("Aumenta que isso aí é rock'n'roll",
"Blues Motel"), mas por espalhar aos quatro cantos do país a notícia
de que havia bom blues sendo feito no Brasil. Junte isso ao talento nas seis cordas,
a voz rouca, a boa aparência e canções de qualidade e se tem um astro
instantâneo. Foi o que aconteceu.
A década de 80 foi mesmo pródiga para o guitarrista - é dessa época
outros hits como "Marginal" (ao lado de Cazuza), "Damas da
Noite", "Tempos Difíceis", "Fumando na Escuridão",
"Sempre Brilhará" e as trilhas de "Rock Estrela" e
"Bete Balanço" -, tanto que ele está entre os artistas-símbolo do
período. Mas jamais ficou restrito a ele. Tanto é que foi na década de 90 que
ele gravou o excepcional "Vivo" no Circo Voador (RJ). Foi também
quando passou a se apresentar regularmente na Europa, virou amigo de BB King -
a quem homenageia no nome artístico e que empresta seu toque único a
"Mississipi", faixa do álbum "Indiana Blues", de 95 - e
recebeu o convite para integrar os Commitments. Isso sem falar na agenda lotada
de shows pelo Brasil.
Vale um aparte para a participação de Celso no Festival de Montreaux, na
Suíça, em 1995. Seu apartamento ficava em frente ao lendário The Duke's, bar
onde todas as feras do evento fazem questão de dar canjas.
Nos anos 2000, Celso Blues Boy segue incansável na estrada, de aeroporto
em aeroporto, pelos palcos afora. Nessas idas e vindas, foi parar novamente no
Circo Voador, sem dúvida, seu lar fora de Joinville (SC), onde mora há 12 anos.
Foi ali, naquele espaço lendário, que gravou no ano passado "Celso Blues
Boy ao Vivo", seu primeiro DVD (também lançado em CD pela Penedo
Produções). Diante de uma platéia entusiasmada, ele desfila suas músicas mais
conhecidas com a classe, a garra e a emoção típicas de quem entrega aos fãs bem
mais do que eles pedem.
Se o DVD/CD é a prova física do talento grandioso de Celso e da
qualidade de sua obra, o show de lançamento do produto foi à amostra definitiva
de seu carisma. No dia 1 de abril, ele lotou o Canecão, numa festa
inesquecível.
É a demonstração de que, mesmo após três décadas de carreira, a história
de Celso Blues Boy continua sendo traçada e contada. E, volta e meia, com
superlativos coerentes com seu talento.
Celso faleceu na manhã do dia 06/08/2012, em sua casa, em Joinville.
Celso Ricardo Furtado, 56 anos, sofria de câncer na garganta e estava radicado
em Joinville há alguns anos.
Discografia
- 1984 - Som na Guitarra.
- 1986 - Marginal Blues
- 1987 - Celso Blues Boy 3
- 1988 - Blues Forever
- 1989 - Quando a noite cai
- 1991 - Ao vivo - Celso Blues Boy
- 1996 - Indiana Blues
- 1998 - Nuvens Negras Choram
- 1999 - Vagabundo errante
- 2008 - Quem foi que falou que acabou o rock n' roll? (DVD ao vivo, Gravado no Circo Voador)
- 2011 - Por um monte de cerveja
Videografia
- 2008 - Quem Foi Que Falou Que Acabou o Rock N' Roll? Ao Vivo
